Sezinha, o gaiteiro - por Luiz Henrique Freitas 05/10/2023 - 10h02


 
( foto Sezinha -  arquivo pessoal )

Ele sempre será lembrado como o cara que tocava gaita. Tinha várias e era autodidata. Sempre que o encontrava, o instrumento estava no bolso. De repente estava na boca e rolava um som. Quem estava por perto sempre queria mais. Uma das primeiras vezes que vi o Sezinha, ele estava sentado em alguma coisa com seu chapéu Panamá, outro amigo inseparável, enrolando um cigarro na palha. Fumava de tudo, assim como quase todos os jovens naqueles anos malucos de 1980. Me chamou a atenção seu cabelo comprido, castanho, liso até os ombros.  

Nesta primeira cena em que o vi, ele me olhou suavemente e continuou a enrolar o cigarro, uma das coisas que levou por toda a vida. Não disse uma palavra e nem eu. Recentemente me falou que eu tinha dois anos a mais que ele e que tinha respeito pelos mais velhos rs. 


Um cara legal


Naquele tempo Sezinha era garçom em um bar de um colega da Turma da Tupis no bairro Funcionários, região centro-sul da capital.  Atendia todo mundo muito bem. Às vezes dava um sopro na gaita se o cliente pedia. No fim da noite, já entrando na madrugada, eu passava no bar e costumava tomar um, dois ou três conhaques antes de ir para casa. E lá estava o Sezinha no fim do expediente recolhendo as mesas, copos, pratos e arrumando tudo para o dia seguinte. Quando acabava e se ainda tinha energia, mandava um som na gaita e ia embora.


Perigo na praia


Acho que gostava dessa rotina, pois foi fazer o mesmo em um bar de praia. Me contou que, certa vez, alguns nativos do mal tentaram incendiar o bar com óleo diesel que era usado em um  gerador de energia. Ele conseguiu controlar o incêndio e evitou uma tragédia maior. Neste período tinha uma vida boa e dura ao mesmo tempo. Boa porque muitos jovens sonhavam em morar e trabalhar em cidades praianas, especialmente no verão. Vida dura porque atender dezenas de pessoas, toda noite, é sempre uma tarefa difícil. 


O seguro 


Sezinha ganhava a vida de verdade como corretor de seguros. Até os últimos dias de sua existência neste mundo dizia que estava trabalhando e atendendo seus clientes. Um deles foi o primeiro a chegar no velório. Ele me disse que fez questão de dar o último adeus ao corretor que atendeu a ele e toda a família por décadas. 


O trabalho de corretagem ele aprendeu com parceiros da turma e depois seguiu carreira solo. Teve dois filhos, um casal. Os dois não moravam com o pai, que vivia em um apartamento no bairro Caiçara, na parte noroeste da cidade, com a Ximbica, sua cachorrinha resgatada em uma enchente. Duas semanas antes de partir, eu o visitei. Já debilitado, injetava morfina em uma sonda na barriga. Não conseguia se alimentar depois que descobriu um câncer no esôfago, no início do ano, que se espalhou. 


Um homem valente 


Foram seis meses lutando contra a doença. Usava as redes sociais para se comunicar e enfrentou a pior fase de sua vida com coragem e confiança. 


Sezinha, o Sezar Lawrence, morreu no dia 31 de outubro, aos 61 anos.  O corpo foi cremado e as cinzas serão lançadas no mar, como seu último desejo. 


Ao escutar a música “ Heart of Gold “, de Neil Young, que tem uma gaita legal, me lembrei do Sezinha e escrevi essas linhas. A letra fala da procura ṕor um coração de ouro. Sezinha tinha um desses no peito!


( Leia e compartilhe com amigos e amigas )  


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