Robson, o “Rei da Tupis ‘- por Luiz Henrique Freitas 03/05/2023 - 11h07
Vendedor de carros
Robson Bachur Guimarães, ou somente Robson, Bachur, Catinga ou Urso do Cabelo Duro, como eu, às vezes, o chamava rs.
Robson nos deixou neste primeiro de maio, feriado do Dia do Trabalho, coisa que ele fez a vida inteira. Aprendeu a vender carros com o pai, o “Seu” Ofli, que deixava os veículos estacionados na rua Mato Grosso, no bairro Barro Preto, região central de Belo Horizonte. Depois Robson foi vender veículos em Cambuí, sul de Minas Gerais, onde se casou com a Jane e teve duas filhas.
A referência
Robson era o Rei da Turma da Tupis. Em meados dos anos de 1970, e em toda a década de 80, ele era um dos que comandavam os mais de cem jovens que passavam a tarde e noite na rua do centrão da capital mineira. Nós nos reuníamos em frente ao Fliperama, uma casa de jogos eletrônicos e Totó, ao lado no Ted’s, uma lanchonete famosa por sua Banana Split ( três bolas de sorvete com chantilly e uma banana no meio da vasilha de vidro. Era raro ter grana para pagar uma dessas rs). O Cine Jacques e o Bar do Bahia ( este existe até hoje) compunham o cenário da rua que ficou famosa em toda a cidade por reunir aqueles jovens bonitos, psicodélicos e cheios de sonhos, aos 17, 18 e até os 30 anos. Naqueles anos as turmas eram comuns. As mais badaladas sempre foram as da Tupis, Savassi e Prado.
Gênios do Totó
Robson morava em um prédio na esquina da Tupis com a rua São Paulo. Quando eu chegava para jogar, era só dar o assovio característico “ Fi, fi, fi, iiuuuuu “ que ele aparecia na janela e dava o sinal para esperar. Em poucos minutos já estava no fliper.
Fazíamos dupla com um monte de gente assistindo em volta. Era difícil nos tirar da mesa do totó porque éramos uma dupla bem forte. Ele parava a bolinha branca no jogador de ataque e, com um drible tipo rabo de vaca, metia a bola para dentro da casinha. Todos escutavam o barulho da bolinha entrando e a gente vibrava ao derrotar mais uma dupla. Robson era o melhor jogador de totó daquele lugar. Também jogava muito bem nas máquinas de fliperama, com dois botões do lado, muitas cores, luzes e sons. Era muita diversão.
Crescendo e contando
A Turma da Tupis começou pequena e foi aumentando. Chegou a ter mais de 150 integrantes. Todos que chegavam conheciam o Robson, que era a referência e o “chefe” da gangue. Wilson, o Rolinha, seu irmão mais novo, também era um ícone do lugar. Foram anos e anos de encontros, saídas para festas, jantares de madrugada no restaurante “ Arroz com Feijão “, na Savassi e… muitas aventuras.
Verões quentes
Em um verão, ao chegar na Tupis, vi o braço do Robson com um corte gigante, costurado de forma grosseira e dezenas de pontos: “ Levei uma garrafada em uma briga em Guarapari.” A marca do rasgo no braço ele levou por toda a vida.
Em pelo menos três situações o Bachur me “salvou” e sou agradecido por isso desde sempre. Sem a atuação dele, as coisas poderiam ter tomado um rumo imprevisível e grave.
Uma delas foi na praia de Saquarema, litoral fluminense. Lá pelas tantas da madrugada, nós estávamos caminhando pela praia e um colega incomodava muito, me irritando ao extremo. Depois de pedir várias vezes para que parasse com a zoação, eu perdi a cabeça, peguei uma garrafa e parti para cima dele. Antes de atingi-lo, fui agarrado pelo Robson que me abraçou pela cintura, me ergueu e nos afastamos dali.
Em uma briga minha com um parceiro de turma, na porta do Fliperama, ele fez a mesma coisa, me carregando e levando para longe até a poeira baixar.
Deu ruim
Em uma balada, em um mirante da Serra do Curral, fomos todos em cana. Enchemos três ou quatro camburões da Polícia Militar. Ao entrar na parte de trás da viatura, que mais parecia um cela móvel, minúscula, com grades e furos pequenos para respirar, ficamos todos apertadíssimos e eu comecei a me desesperar. O Robson estava ao meu lado. Com dificuldade, ele passou o braço no meu pescoço e disse: “ Calma, calma, respira. Daqui a pouco a gente sai daqui.“ Foram as palavras dele que me recolocaram no eixo até a chegada à sede da Polícia Federal.
Hoje penso que o Robson foi uma espécie de anjo da guarda que agiu naqueles momentos de críticos.
Fusca destruído
Em outra situação, estávamos a caminho de uma festa no fusca dele. De repente Robson perdeu o controle da direção e o carro capotou várias vezes na av. Raja Gabaglia. Ao sair do veículo, que parou com as rodas para cima, eu o vi chorando, preocupado com o estrago e com o que o pai iria achar daquele acidente. Então eu disse a ele: “ Robson, não se preocupe. Prejuízo material a gente recupera. Importa que estamos vivos.”
As melhores férias
Em outra viagem de verão, fomos no meu carro, um Passat branco 1976, até Arraial do Cabo, no Rio de Janeiro. Ficamos 25 dias lá. Esse passeio foi fantástico. Só alegria. Em uma praia da região, apostamos uma corrida de velocidade de uns trezentos metros. Eu, ele e o Marquinhos, outro parceiro de todas as horas. Essa eu ganhei rs. Em uma tarde, eu estava lendo alguma coisa na casa alugada para a temporada e ele profetizou: “ Você está lendo igual a um professor!” Anos depois eu me tornei professor universitário. Ainda viajamos juntos em outros verões para Itaúnas , no litoral capixaba, onde nos divertimos muito antes de voltar ao batente, em Beagá.
Se vira nos 30
Por volta dos 30 anos, cada um foi tomando um rumo na vida. Robson se casou com a Jane e foi morar em Cambuí. Nesses últimos 40 anos, eu o vi apenas uma vez, quando passei por lá a caminho de São Paulo.
Com a morte do Robson, a Turma do Tupis perde sua referência maior. A imagem que fica é a de um amigo e parceiro dos tempos de juventude rebelde, divertida e com muitas namoradas. Nós que estamos aqui vamos sempre referenciá-lo nos encontros futuros.
Os Bachur
Sempre que passarmos pela rua Tupis virá à mente a lembrança dos Bachur, em especial do Robson, Rolinha, Wagner, Jorge, Sandra, Eli, Dona Malvina e Seu Ofli, a família do décimo primeiro andar no edifício da esquina, que nos recebia tão bem, não importava se nos conhecia ou não. Bastava dizer que era um amigo dos filhos que as portas se abriam, com comida e hospedagem, se fosse necessário. Muitos passavam meses dormindo lá. Quase todos nós frequentamos a casa dos Bachur, mesmo quando o Robson ou Rolinha não estavam, para conversar e aprender lições de vida e integridade com os pais e o Eli, sempre às ordens. Bons tempos, não?
O adeus
Hora de terminar essas lembranças que compartilhei com amigos, colegas e familiares do Robson.
Siga em paz, Robson Bachur Guimarães, o Rei da Turma da Tupis!
( Leia e compartilhe flashes de uma turma famosa e seu ícone, nos anos 70 e 80, em BH)
Comentários
Postar um comentário